O amor pode terminar?

25/ago/2011 - Nenhum Comentário

Quando tempo pode durar o casamento? Ou  ainda, quando é que ele começa a desmoronar? Até há pouco, pensava-se  que as primeiras crises chegassem depois de sete anos de “feliz”  convivência. Em seguida, o tempo se abreviou, e o prazo de sua validade  foi reduzido para cinco anos. Ultimamente, um levantamento feito pela  Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, com aproximadamente  10 mil casais, descobriu que o amor não sobrevive mais de três anos –  dado que coincide com outro estudo feito no Reino Unido, entre 2 mil  casais.

«Paixão eterna só existe na ficção»,  afirma o psicólogo Bernardo Jablonksi, autor do livro: “Até que a vida  nos separe: a crise do casamento contemporâneo”. Contudo, as diversas  separações pelas quais ele atravessou podem provir do fato de ter identificado o  amor com a emoção: «Na paixão, você sofre, deixa de se alimentar, não  consegue dormir. Não poder durar!».

Dessa confusão não escapa outro  psicólogo de renome, Aílton Amélio. Fundamentado no princípio de que  tudo na vida precisa ser alimentado para não morrer, ele conclui: «O  amor pode terminar, porque precisa ser nutrido por fatos. É como andar  de motocicleta: se parar, cai».

Apesar da dificuldade de distinguir as  coisas, o cineasta Roberto Moreira consegue descortinar uma luz no fundo  do túnel: «O amor pode ser eterno, mas a probabilidade é pequena.  Relacionamento que dure mais de dez anos é um sucesso». Referindo-se ao  seu filme “Quanto dura o amor?”, lançado em 2009, Moreira apresenta a  solução do enigma: «Talvez o melhor título fosse “Quanto dura a  paixão?”, porque o amor só existe quando o parceiro deixa de ser uma  projeção nossa».

Como já se tornou lugar-comum afirmar,  amor é a palavra mais inflacionada do planeta. Diz tudo e não diz nada!  Pode ocultar um egoísmo tão atroz que seu fruto é o desespero e a morte.

Contudo, para os cristãos, sua realidade  resplandece como o sol. Quem encontrou seu pleno significado foi o  evangelista São João. Por que ele é o único dos apóstolos que, por mais  vezes, se declara o “discípulo amado” por Jesus? A resposta é simples  e… deslumbrante: porque foi ele quem escreveu a página mais comovedora  da Bíblia e fez a descoberta mais revolucionária da história: «Deus é  amor. Quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele»  (1Jo 4,16).

Mas, o que é o amor? Eis a resposta de  São João: «Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter  enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por Ele. O amor  consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que  nos amou e nos enviou o seu Filho para nos libertar de nossos pecados»  (1Jo 4,9-10).

Para São João, amar é dar o que de  melhor existe no coração humano – sem dúvida, fruto do sacrifício – para  que a pessoa que está ao lado tenha uma vida digna e plena. Assim como  faz Deus, que oferece o que de mais precioso tem: Seu Filho Jesus. Amar  é sair de si mesmo, é esvaziar-se de seus interesses para que o outro  se liberte e se promova, em seu sentido mais verdadeiro e profundo. Por  isso, o amor exige autodomínio e heroísmo ao pedir que nos coloquemos  diante de cada pessoa sem levar em conta as emoções, as mágoas, os  apegos e os preconceitos que se aninham em nosso coração. Amar é tomar  sempre a iniciativa: «Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que  nos amou e enviou o seu Filho».

O amor humano, embora bonito, misterioso  e arrebatador, não é suficiente para preencher o espírito humano. Se é  indispensável para iniciar um casamento, é insuficiente para mantê-lo de  pé a vida inteira: «O fato de sermos amados por Deus enche-nos de  alegria. O amor humano encontra sua plenitude quando participa do amor  divino, do amor de Jesus que se entrega solidariamente por nós em seu  amor pleno até o fim» (Documento de Aparecida, 117).

O que pode acabar – às vezes, com uma  rapidez tão espantosa que se transforma em seu contrário – é a emoção, o  sentimento, a emotividade. Mas o amor verdadeiro nunca termina,  simplesmente porque se identifica com Deus. Nessa simbiose divina, ele  passa a ter a fisionomia de Deus: paciente e prestativo, humilde e  perseverante, misericordioso e gratuito: «Tudo desculpa, tudo crê, tudo  espera, tudo suporta» (Cf. I Cor 13,4-7).

Dom Redovino Rizzardo, cs
Bispo de Dourados – MS


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